Rosana Blogueira

sábado, 2 de abril de 2016

PEDRA FILOSOFAL



Hoje
A moça-caixa do supermercado
Torceu o nariz para o gorgonzola
Resmungando com cara de asco frase do tipo “como pode alguém gostar disso?”
Então, fiz semblante de "paisagem" como se eu  não soubesse que a mim ela se referia.
Enquanto ela insistia na  murmuração , inconformada, teorizando sobre  o mau-paladar  alheio
Eu via pessoas - na fila - blasfemando sobre o trabalho que as sustenta
Outras desesperadas procurando – fora dali - em asfalto incandescente
Por um trabalho que da fome as afugente.

Hoje
Deparei-me com pessoas bem-sucedidas
Insatisfeitas
Desejando muito mais do que já têm...
Uma mulher sentou-se ao meu lado e pregou a Palavra
Enquanto apontava os erros do seu próximo carregada de rancor.
E eu olhava para as nuvens visualizando símbolos da paz...
Vi pessoas  protagonizando a estupidez humana
E também os náufragos do amor.
Presenciei
Choros contidos
Em grilhões de  tristeza profunda.
E eu deixei minhas  lágrimas  secarem ao sol.

Hoje
Vi pessoas pregando seus dogmas
Donas da  suas verdades incontestáveis.
E eu sentia o sol queimando minha pele, incendiário...
Em instante seco
O dia se fez noite
A chuva veio
Arrastou
Meus pensamentos e meus chinelos
Cortou
Minha fala – um entrevero -  com o Mestre
Sobre as pedras no caminho
Em águas violentas
Em lama humana
Em palavras sombrias
De seres funestos.

De repente: a resposta!
Veio-me  a boa-nova se apresentar
Como sonho meu  materializado
E o que parecia  surreal, tornou-se real!
Então, naquele momento
Olhei para o Alto
Vi um imenso arco-íris rasgar o firmamento
O céu  se abrir no entardecer, entre flocos de algodão
E a noite cair em céu ofuscante de estrelas.
No lusco-fusco
Vislumbrei três delas - as mais brilhantes
Que me remeteram a pessoas queridas.

Fora o "dia da mentira"
Mas sucedeu a verdade compreensível.
Veio O Altíssimo me sorrir
Abraçou-me
Acenou-me que
A vida é um cisco
Não é pra ser entendida
Apenas deve ser sentida e muito bem vivida.

Hoje
Ciente de que tenho
Um dia a menos em jornada terrena
E de que não sei quantos outonos me restam
Com a certeza de que o amanhã, tão incerto
Já se prenuncia
Tenho em minhas mãos
Minhas  atitudes - no agora.
Então,
Escancaro portas janelas coração
Para deixar entrar
O mais novo presente
Dádiva tão esperada.

Hoje
Agradeço
Retribuo o afago vindo do Alto
Faço da vida - doce ilusão
Significância maior
E, entre a gangorra da tristeza e da  alegria,
Apenas decido materializar o desejo
De esgotar nesta vida
Tudo o que vem a mim por direito – ou quem sabe e por que não?-
Por merecimento.
Pois, que assim seja!
Valeu, Deus do Impossível
Que hoje me revela

O muito além do Possível!